segunda-feira, janeiro 12, 2015

Por que a maioria dos rótulos estão errados a respeito das calorias?

        Os rótulos dos alimentos devem fornecer todas as informações que o consumidor precisa, então a contagem de calorias deveria ser simples. Mas aí as coisas ficam complicadas, pois os rótulos contam apenas metade da história.

       A caloria é a medida de energia. O rótulo diz quantas calorias aquele alimento possui. Mas o que ele não diz é quantas calorias você adquire daquele alimento dependendo do quão processado ele for.

Cru X Cozido, eles parecem diferentes mas isso não é tudo - Waifer X, CC BY   

ALIMENTOS PROCESSADOS ENGORDAM MAIS

      Alimentos processados incluem cozinhar, misturar e triturar, ou usar farinha de trigo refinada ao invés da integral. O processamento pode ser feito pela indústria, ou em sua casa quando for preparar uma refeição. Seus efeitos podem ser grandes. Se você come um alimento cru, você tenderá a perder peso. Se você come o mesmo alimento cozido, a tendência é ganhar peso. Mesmas calorias, resultados diferentes.


Batatas: crua, picada, cozida e amassada. Esse processamento implica em maior aporte de calorias - . Robyn Anderson and United Soybean Board, CC BY-NC-ND


ALIMENTOS PROCESSADOS SÃO DIGERIDOS MAIS COMPLETAMENTE
 
    Experimentos com animais mostram que o processamento afeta o ganho de calorias se a fonte de energia for carboidratos, proteínas ou lipídios (óleos e gorduras). Em todos os casos,  alimentos mais processados dão ao consumidor mais energia.

   O carboidrato,  por exemplo, é o alimento que proporciona mais do que metade das calorias do mundo. Sua energia está muitas vezes armazenada em grãos de amido, "pacotes" densos de glicose que são digeridos principalmente no seu intestino delgado. Se você comer um alimento cru, rico em amido, até metade dos grãos vão passar através do intestino delgado sem ser digerido. Seu corpo absorve dois terços ou menos do total de calorias disponíveis no alimento. O restante pode ser usado por bactérias no cólon, ou pode ser totalmente eliminado. 

    Até mesmo entre alimentos cozidos a digestibilidade varia. O amido torna-se mais resistente a digestão quando, após o aquecimento, é deixado para esfriar, pois ele cristaliza em estruturas que as enzimas digestivas não podem quebrar facilmente. Alimentos secos como espaguete ou torrada fria, lhe dará menos calorias do que os mesmos alimentos consumidos bem quente, embora tecnicamente eles contenham a mesma quantidade de energia armazenada.
   
    Os alimentos altamente processados são não só mais digerível; eles tendem a ser mais macios, o que requer que o corpo gaste menos energia durante a digestão. 
    Em um experimento com ratos, pesquisadores os alimentaram com dois tipos de ração. Uma em pellets sólidos, do tipo normalmente dada em laboratório, e a outra contendo apenas  mais ar, ambas contendo a mesma quantidade de calorias. Ao final do experimento os ratos que comeram a ração mais aerada,  ficaram mais pesados e tinham 30% mais gordura corporal do que os outros que comeram a ração normal.
   
    A razão pela qual os ratos que consumiram a ração mais aerada ganhou mais energia é que os intestinos não tem que trabalhar muito. Quando os ratos comem, a sua temperatura corporal aumenta devido ao trabalho de digestão. Uma refeição de pellets aerado conduz a um menor aumento na temperatura corporal do que a mesma refeição de pellets sólidos, uma vez que o primeiro tipo requer menos energia para digerir,  conduzindo a um maior ganho de peso e mais gordura.
     Nossos corpos funcionam da mesma maneira. Eles fazem menos trabalho ao comer alimentos que tenham sido cozidos, amassados ou aerados.

Pão integral X pão branco: menos processado é melhor para o emagrecimento

 POR QUE OS RÓTULOS DOS ALIMENTOS NÃO NOS CONTAM TUDO?


    Se quisermos perder peso, devemos desafiar nossos desejos instintivos. Devemos optar pelo pão integral ao invés do pão  branco macio, queijo natural ao invés do queijo processado, vegetais crus ao invés de legumes cozidos. E para fazê-lo seria muito mais fácil se nos rótulos dos alimentos nos fosse dado conselhos sobre quantas calorias pouparíamos por comer  alimentos menos processados. Então, por que os nutricionistas não dizem nada sobre o tema?
 
   Durante décadas, as comissões e instituições tem apelado para reformar o sistema de contagem de calorias. Mas os pedidos de mudança falharam. O problema é a falta de informação. Os pesquisadores acham difícil prever com precisão quantas calorias extra será adquirida quando o alimento for processado. Por outro lado, eles acham que é fácil mostrar que, se um alimento é digerido completamente, ele irá produzir um número específico de calorias.

 Assim,  rotulagem de alimentos enfrenta uma escolha entre dois sistemas, nenhum dos quais é satisfatório. O primeiro dá um número exato de calorias, mas não leva em conta os efeitos conhecidos no processamento dos alimentos. O segundo seria ter em conta o processamento dos alimentos, mas sem números precisos.

 Diante dessa escolha difícil, cada país tem optado por ignorar o efeito do processamento e o resultado é que os consumidores estão confusos. Os rótulos fornecem um número que provavelmente superestima as calorias disponíveis nos alimentos não processados. Os rótulos dos alimentos ignoram os custos do processo digestivo. Os custos são mais baixos para itens processados, por isso a quantidade de superestimação em seus rótulos é menor.

Rótulos dos alimentos parecem tão específicos, mas eles não contam tudo - Man image via www.shutterstock.com.

 HORA DE MUDAR?


    Dada a importância da contagem correta de calorias, é hora de voltar a abrir a discussão. Uma idéia seria desenvolver um sistema de "semáforo" nos rótulos dos alimentos, alertando os consumidores para os alimentos que são altamente processados (sinal vermelho), levemente processado (sinal verde) ou meio termo (sinal amarelo).

  Exige-se mais educação sobre os efeitos da forma como nós preparamos a nossa comida e em nosso ganho de peso individual. Precisamos de um grande esforço científico para produzir números adequados sobre os efeitos do processamento de alimentos.
 
Esse artigo foi originalmente publicado no The Conversation


LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...